sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Tinta na paleta, paleta na tinta.

O céu é azul, mas o azul do céu que eu vejo é tão doce...
Suave no tato, criança nos olhos, eterno na alma.
Eu gostaria ousadamente de saber se todos os azuis são iguais. Pois, pergunto-me agora - com calma e sem rimas - quem poderia garantir que o azul de outra pessoa não é o dourado de meu Sol?
E se for, não complico e mesmo assim te digo que o céu é azul, mas o azul do céu que eu vejo é tão doce...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Sépia.

Escuto minhas antigas valsas. Escuto até extrair o sangue incolor que precisava tanto. Salga minha boca.
Mas eu não posso escrever sobre o que vejo, não sei descrever, não sei o que é. Eu olhei para fora da janela até que as luzes da cidade e as do céu acendessem. Uma por uma. Um pedido e um adeus, um começo e um fim.  E fica bem claro pra mim que eu não posso fazer o dia clarear novamente.
Fotografias caídas no chão estão pedindo: "onde está minha mente?" e eu me pergunto: "onde está minha mente?"
Eu giro e olho pro mesmo lugar mas tudo parece envelhecido, antigo, amarelado. Porém ainda não em preto e branco, ainda não. Apenas sépia. Como uma canção de ninar que quer ser cantada.
Finalmente cantei.

domingo, 2 de outubro de 2011

Meu coração

partiu em mil pedacinhos quando eu coloquei meus pés no chão outra vez...

Eu posso dizer que tudo começou com o espelho que joguei fora, mas eu estaria sendo breve de mais... a verdade é que tudo começou quando pensaram em mim pela primeira vez, tudo começou quando o Escritor colocou a primeira letra maiúscula no papel e me escreveu.
Então, na incontável vez que me sinto recém nascida, eu paro um pouco, paro para me sentir e sentir o universo que flui em minhas veias, palpita em meu peito. Eu já ouvi falar de sentimentos, mas concluo que nenhum deles pode ser nomeado ou descrito. Eles nunca são os mesmos, não esperam que você os entenda.
Lembro que comi um biscoito da sorte, eu já o temia. Temia muito antes de me dar conta que não acredito em sorte, temia a ordem na qual ele estava escrito.
"Inundações são passageiras. Períodos extraordinários também".
Dói um pouco, mas quando passa eu percebo que é uma dor saudável e é tão inevitável quanto estar vivo.
Adormeci no tempo e no espaço, partes de mim já não sei onde foram parar. Mas é tão bom quando finalmente elas se tornam independentes o suficiente para irem para longe de você e fazerem parte da vida de outras pessoas.
O tempo vai passar e você vai virar apenas uma lembrança bonita guardada na minha caixinha de memórias. Mas não fique triste, não fico.
Ficará lá para sempre, dançando junto com o tic tac do meu coração.

sábado, 10 de setembro de 2011

3x4

Caiu. Despencou.
Um pedacinho do céu estava bruxuleante logo ali, como um passarinho que caiu do ninho e sobreviveu. Aparentemente só eu o vi, o resto do mundo estava ocupado de mais com as  coisas de seus próprios labirintos interiores.
O céu me olhava inquieto, com sua respiração ofegante. Não me respondeu quando eu perguntei se tinha se machucado. Abria os braços com força - não sei se eram braços, mas imaginei que fossem – como se estivesse implorando por um abraço. Partiu meu coração, pois quase chovia ao fazê-lo!
Insignificância - pensei eu quando me ajoelhei ao lado do céu. Eu e ele.
O abracei por um ou dois minutos, talvez horas, não lembro.
Ele então subiu, subiu pra tão alto que de repente não sabia mais se ainda o via ou era apenas minha imaginação.  Lá em cima me agradeceu tirando o chapéu, piscou de leve. Uma pecinha de quebra-cabeças encaixada. Quando o maior sorriso do mundo todo se abriu naquele dia ninguém viu. Mas eu vi.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Desconheci alguém.

O nome dele não sei, ele o esconde muito bem.
Ele usa um chapéu velho e azul e carrega sempre um espelho no bolso - precisa constatar de instante em instante que está vivo e que o rosto que conhece ainda é o mesmo.
Por dentro, seus pulsos cortados algumas três ou quatro vezes. Por dentro, medo e perigo transpostos.
Por fora, bonitos olhos de plástico.
Já queimou tantas vezes seu próprio amor, que está distorcido. Acabou...
Perambula no meio das ruas, perdido. Se foi.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Meu barquinho de papel.

Navegando pelo oceano...
Com um beijinho depositei todos os meus sonhos, toda minha confiança navega junto com ele.
E navega, navega.
Ora para longe... mas sempre perto de mim. Pode ser que seu externo seja apenas papel, mas seu interno é infinito, serve todos nós.
Eu sei que o oceano vez ou outra torna-se turbulento, vez ou outra pretende me derrubar. Mas sempre estarei em segurança.
Mergulho, flutuo, tanto faz.
Sei que jamais irei me afogar.


Feliz aniversário papai e obrigada por tudo!





Oh não, meu barquinho de papel nunca deixará que eu me afogue!

sábado, 20 de agosto de 2011

A vida permanece construindo seus ciclos. Reciclando ao que parece ser o fim. Renovando a pureza para que o mundo possa continuar sendo habitado.
Das cinzas às cinzas - essa deve ser a maior mágica de todas, quando os olhos não podem mais interpretar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

metade desigual.

Desta vez, quando a chuva passou, cada pedaço meu espalhou-se pelo mundo, revivi em todo lugar, qualquer lugar.
Me liberto de novo, cem vezes ao dia, todo dia. Estou vendo um pequeno milagre interior e milhares que aos poucos nascerão ali fora!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

OVO!

"Invente nomes absurdos então!" - disseram os seres vivos da minha consciência. "De qualquer forma você não tem lógica nenhuma. O que te dizem externamente é inválido, escute o que eles falam por dentro, onde o coração grita e é necessário fechar bem os olhos para imaginar cada palavra, sentir cada sentimento. Encha isso daqui com vírgulas ou coloque reticências de uma vez".

Mudar de rota.

Pare de buscar a solução ao Norte - sempre ao Norte.
Os pesadelos que tive me influenciam a suspeitar que algo com você está errado. Você se perdeu, sem nem ao menos perceber. Veleidade.
Não é o único. Já perguntou a si mesmo quantos rostos confusos e mentes perdidas você vê em apenas um dia? Solitários, seguem sempre o mesmo rumo. Mesmo que uma mentira os cubra inteiramente, a bússola em suas mãos está sempre ali: persistente ao empurrar o ponteiro que indica o Norte.


Quebre a bússola.

domingo, 7 de agosto de 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

lararí-larará

Então eu me encontro no meio de multidões; multidões de cores, de gestos, de sabores, exalando culturas, multidões de loucuras.
E eu também sou multidão, faço parte do barulho, faço minha parte como um, única. Alguém na multidão!


Tenho marcas permanentes e sorrisos... alguns roubados!


Obrigada Criador!


quinta-feira, 7 de julho de 2011

teu século

Um século e você permanece o mesmo: risadas de bolhas, roupas de limo e todos os dentinhos de leite.

Desde o meu primeiro riso, desde meu primeiro sonho e ainda posso escutar o conhecido cocoricar - vitorioso e brilhante como Nunca!
E agora, mesmo que eu não voe mais, mesmo que te assuste quando você de repente se lembrar que eu continuo crescendo; a janela no fundo do meu peito permanecerá aberta por você. Te esperarei em cada primavera, Peter Pan!

sábado, 2 de julho de 2011

De sempre em sempre,

resgate seus risos infantis, junte os pedacinhos de fé, distribua alegria gratuitamente e dê bom dia para seu amigo imaginário.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Eutanásia.

Fragilizada. Fragilizada assim como a estação.
Quebradiça como as gotículas congeladas na grama durante o despertar do dia.
Meu sentimento muda assim... pelos pingos de chuva, pela brisa de verão, por estes corpos tão gelados no inverno.
Eu escuto o que não ouço. Penso no que não falo com ninguém. Eu expiro palavras tortuosas.
Você sempre me dizia para não ter medo. Engraçado que agora eu nem ao menos possa te dizer o quanto você é covarde. Eu posso ainda ter medo de aranhas, mas você teme o mundo todo, você teme o contato alma com alma, fé com fé.
Você sempre me dizia que amor era suficiente para dar paz aos corações, que o amor era tudo o que precisávamos. Agora você tem um coração toxicomaníaco e de que adianta? Você ainda precisa, depende, precisa, desaba.
Eutanásia.
Ao efeito anestésico nós estamos. Aos poucos - bem lentamente - eu aplico a endovenosa em você. Morte fácil.
Restaurar o quebrado é inválido, você sabe disso, mas você já tem seus olhos fechados e distantes.
Não foi só o ano que mudou. É o caminho que agora é outro.

A fé não falha, ainda que a hidropirimidina pare seu coração. A fé não falha e você voltará a viver.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Ensaio qualquer.

Ainda não sei se ela procura por um coração ou se tenta descobrir quem é. Não sei se ela vai viajar pelo mundo ou se vai ter apenas alguns minutos.
Se buscará pelos defeitos, não sei.
Não sei se entenderá a vida.
Mas eu quero que viva, que sobreviva.
Bonequinha, bonequinha! Quero costurar um coração de pano para você.

sábado, 4 de junho de 2011

Tem uma fábrica de chocolates na cidade.

Não. Ele ignorou o relógio de pulso desta vez. Não o quis. Sem tempo com números, sem números.
Vestiu seu jeans surrado e, com os olhos concentrados em um livro, colocou sua jaqueta predileta, mais como um abrigo do que por elegância.
Café. Ele cheira a café. Algumas vezes, parece ter ficado a noite toda acordado, cercado por montanhas de livros e papéis de trabalho, raciocínio apenas vindo de café. Ele deve ter uma máquina de escrever, não sei ainda o porquê, mas creio que ele tem uma máquina de escrever, mesmo que ela esteja apenas no espírito.
Ele é como um doceiro, um legítimo fabricante e criador de doces - mesmo que sejam doces incompreendidos. Ele implanta docinhos na mente dos seres humanos. Um inesgotável trabalho intelectual, como diria Marx, se bem que prefiro dizer inesgotável talento intelectual.
Saiu de um quadro, de uma guerra, saiu do teatro. Rosto de seis horas da tarde, improvável.
Ele seria um bom personagem. Ah, ele seria.